AUTORITARISMO E VIDA LITERÁRIA NOS ANOS 40
Conforme informações apresentadas por MICELI[1] e JOHNSON[2], a década de 40 representou um período decisivo na história da literatura deste século. O país conheceu um crescimento vertiginoso, sem precedentes, de seu mercado editorial. A difusão de livros se desenvolveu intensamente, sobretudo no contexto escolar. A demanda e a circulação de livros aumenta em quantidade e diversidade. São redimensionadas as relações habituais entre a vida editorial e o público leitor, que propõe novos critérios de interesse.
Na imprensa ocorrem mudanças: é estabelecida uma competição entre diversos órgãos responsáveis pela publicação de jornais, sendo os Suplementos Literários dedicados à apresentação de novidades, à exposição de juízos influentes de valor, e aos debates intelectuais. Paralelamente ao crescimento da presença de literatura e crítica literária no jornal, o New Criticism ganha espaço, surgindo esforços, com influência de pensadores norte-americanos, para a instituição de uma crítica científica no país.
É fundada em 1942 a Associação Brasileira de Escritores, reunindo “duas gerações de escritores de várias tendências políticas, que vão da extrema direita à extrema esquerda”[3]. Pela primeira vez na história brasileira, os escritores propõem a si mesmos como classe profissional interessada em direitos jurídicos, determinada a ocupar uma posição definida no mundo do trabalho. Reunindo nomes de tendências díspares, a Associação expressou uma concepção nova da posição social do escritor.
Muitos escritores tinham vínculos com o Estado, ou com organizações políticas. Em vários casos, as possibilidades de editoração, circulação, exposição na imprensa e reconhecimento literário estavam associadas, direta ou indiretamente, à filiação a uma linha de conduta política, ou à ocupação de um cargo administrativo.
No conjunto, esses elementos – ampliação do mercado editorial e da presença da literatura na imprensa, fundação da Associação Brasileira de Escritores, articulações entre a estrutura política e a produção literária, mudanças no perfil da crítica – definem um campo de atividade intelectual extremamente intenso, sem precedentes na história do país. Entre as motivações para essa intensidade, está o fato de que o processo histórico passava, na ocasião, por uma série de transformações complexas.
Um primeiro aspecto a observar é a ambivalência do país em termos de política internacional. Para dizer de modo breve, em nosso interior circulavam no início dos anos 40, em pleno Estado Novo, posições de apoio a regimes autoritários firmados, como o nazismo alemão e o fascismo italiano, e também idéias compatíveis com os interesses norte-americanos. Desde meados da década de 30, até a entrada do Brasil na 2a Guerra Mundial, essa mistura provoca uma série de conseqüências em termos de comportamentos governamentais nas relações internacionais. O fato de nunca termos chegado a adotar um modelo plenamente correspondente aos extremismos europeus, de acordo com LAMOUNIER[4], se deve à ambivalência político-econômica do país, em meio aos interesses contrários que o atingiam.
Um segundo aspecto é o modo como a modernização tecnológica se desenvolveu no país no período. Embora tenha havido em 1930 uma ruptura importante no regime, com a queda da hegemonia oligárquica, a passagem da economia dos anos 20 para o populismo getulista não correspondeu a uma mudança estrutural, mas à conservação das condições de hierarquização sócio-econômica. Conforme SCHWARTZMAN[5], DUARTE[6] e ARAÚJO[7], a modernização econômica e tecnológica é acompanhada de uma conservação de formas de relacionamento social, sobretudo no que concerne à conduta política das elites. O país se moderniza, mas conserva uma lógica de opressão e desigualdade.
Em terceiro lugar, a cultura do início dos anos 40 guarda heranças das décadas anteriores. Nos anos 20, tivemos a consagração dos modernistas, com Mário de Andrade e Oswald de Andrade conjugando vanguarda e consciência histórica para rever a leitura do passado nacional. E também tivemos a presença do verde-amarelismo, com o nacionalismo de Plínio Salgado, Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia, cujo trabalho vai convergir nos anos 30 para a produção integralista e a assimilação de idéias do fascismo europeu. Essas diferentes heranças vão se misturar, de modo que, no início dos anos 40, a Associação Brasileira de Escritores vai reunir autores vinculados a ambas as linhas.
A intensificação da vida literária nos anos 40 pode ser compreendida como resultado dialético do aprofundamento dos conflitos ideológicos que vinham se formulando desde os anos 20 e 30 – modernização tecnológica / conservação hierárquica, liberalismo / autoritarismo, modernismo antropofágico / integralismo. As tensões produzidas no confronto entre esses elementos ganharam variadas formas, e motivaram um debate ideológico e estético que levou muitos escritores a propor publicações nos anos 40.
O ano de 1945 é decisivo nesse panorama. Com o fim da 2a Guerra e o encerramento do Estado Novo, a sociedade brasileira é levada a atribuir um descrédito aos regimes autoritários. Entre as obras publicadas nessa década e nesse ano, merece destaque A rosa do povo.
Não sendo possível no espaço deste artigo desenvolver uma leitura exaustiva do livro, o que se pretende aqui é indicar como, examinando os vários temas nele presentes, encontramos uma capacidade forte de elaboração de uma reflexão exemplar sobre a história. A contextualização do livro na vida literária dos anos 40 torna ainda mais relevante a consideração de seu potencial crítico.
De modo esquemático, podemos, sem pretender exaustividade, enumerar alguns dos principais temas de A rosa do povo. Drummond reflete sobre as condições de elaboração do texto poético, caracterizando a ambivalência da capacidade de comunicação da poesia, que mantém a intenção de manifestar idéias e posições, mas já contém em si mesma a crítica das suas limitações sociais (conforme SIMON[8]). Aponta para a passagem do tempo, revolve a memória (CANDIDO[9]). Alarga seu horizonte de delimitação do passado, que inclui o passado recente, gerações anteriores, e também referenciais antigos, míticos, lidos pelo avesso da tradição, na Nova canção do exílio. De modo geral, o passado é cravado pela ruína (HARDMAN[10]).
Em A rosa do povo, Drummond demarca a constituição da subjetividade de modo muito próximo ao que ocorre na lírica de Paul Celan (CELAN[11]). O sujeito, em sua vida menor, é caracterizado pela fragilidade, e o sentimento que demonstra com que se molda a relação entre o sujeito e o mundo é o medo. Coerentemente, encontramos com força no livro a presença da morte, esmiuçada entre o terror e o banal em Morte no avião. O desejo é lançado à indeterminação, como tematiza Carrego comigo.
A sociedade tem sua perversidade desmascarada, exibindo seu âmago capitalista. Mercadorias e burocracias contribuem para a reificação, e a modernidade é exposta no livro como degradação e desumanização (CAMPOS[12]). Referências ao processo histórico são numerosas. A dialética entre o horizonte local e o espaço mais amplo é expressa na representação da América, e no enquadramento dos dilemas no contexto internacional. As experiências do socialismo, a política alemã e a problemática russa se reúnem no palco dos confrontos ideológicos das primeiras décadas do século XX.
Mais do que tema final, flagrado no poema a Charlie Chaplin, a relação entre arte e povo é nuclear no livro todo, costurando de modo contraditório as linhas de esforço comunicativo e senso de compromisso com as dores inconformadas da dificuldade de ação e das limitações individuais frente à tensão dos movimentos históricos.
Explorando recursos da lírica moderna (FRIEDRICH[13]), Drummond propõe em seu livro uma sólida, fundamentada e inquietante reflexão sobre a formação social brasileira. Situa o leitor, descontinuamente, nas dimensões do espaço e do tempo, mapeando tensões ideológicas que se movem à sua volta, atingindo diretamente as condições de existência social. Ao mesmo tempo, propõe uma representação do sujeito, herdeira de Machado de Assis e Graciliano Ramos, calcada na fragilidade, na incerteza e na finitude, em que as possibilidades de compreensão e domínio da experiência são ameaçadas pela reificação capitalista, pelo horror implantado na política e pela percepção das ruínas deixadas no passado.
A rosa do povo impressiona não apenas por um grau raro e exemplar de capacidade de articular elementos líricos e problemas históricos, mas sobretudo pelo espantoso fato de vir à luz em um momento como 1945, em que nada facilita a circulação de uma obra com esse perfil. O livro não se presta aos interesses capitalistas do mercado editorial, pois critica a base do sistema que o sustenta. Não teme a repressão, formal ou informal, que os ideólogos do Estado Novo poderiam ter determinado, mesmo depois do fim do governo de Getúlio Vargas. O livro se afasta de qualquer celebração da modernização tecnológica. Com certeza, como já observou Antonio Candido (CANDIDO, apud MICELI[14]), de modo algum traduz um comprometimento com Gustavo Capanema ou Getúlio Vargas, mostrando autonomia ideológica do poeta, que fez parte do aparelho de Estado.
Considerando a vida literária e o contexto social dos anos 40, A rosa do povo, como obra-prima, é uma conjugação de inserção nos conflitos ideológicos da História e construção de um conjunto de recursos expressivos de rara qualidade estética. Descartado o nacionalismo ufanista, Drummond encontra formas para falar do Brasil descartando qualquer senso de linearidade ou unidade (Conforme MIRANDA[15] e SCHMIDT[16]). Um dos fatores de grandeza do livro, que o distingue da média da produção do período, está em sua concepção de História, em que público e privado se combinam. Está ausente qualquer teleologia firme, qualquer lógica causal. O fato de Drummond, fragmentariamente, associar diversas camadas temporais de passado – um passado imediato, gerações anteriores, tempos remotos – sugere a afinidade, pela perspectiva das ruínas, entre os dilemas de diferentes tempos. Problemas deste século se ligam ao século anterior, problemas do presente se ligam aos de vinte anos antes. Historicamente, isso sinaliza a persistência de problemas sócio-políticos. O mal-estar constituído pelo autoritarismo do Estado Novo e do fascismo europeu remonta a experiências autoritárias anteriores, que devem ser lembradas, para aproximação do presente (Conforme PINHEIRO[17], VIEIRA[18], SEGATTO[19] e SANTOS & TIRELLI[20]).
Referências Bibliográficas:
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VIEIRA, Oscar Vilhena. Sociedade x Estado. Revista USP. São Paulo: USP, 1991. n.9.
[1] MICELI, Sérgio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil. 1920-1945. São Paulo: Difel, 1979.
[2]JOHNSON, Randal. The institutionalization of Brazilian Modernism. Brasil / Brazil. Porto Alegre: PUC-RS/Brown University/Mercado Aberto, 1990. ano 3. n.4.
__________. A dinâmica do campo literário brasileiro. Revista USP. São Paulo: USP, 1995. n.26.
[3] Idem, p. 178.
[4] LAMOUNIER, Bolívar. Introdução. In: AMARAL, Azevedo. O estado autoritário e a realidade nacional. Brasília: Unb, 1981.
[5] SCHWARTZMAN, Simon. Bases do autoritarismo brasileiro. Rio de Janeiro: Campus, 1988.
[6] DUARTE, Adriano Luiz. Cidadania e exclusão: Brasil 1937-1945. Florianópolis: Ed. UFSC, 1999.
[7] ARAÚJO, Maria Celina, org. As instituições brasileiras da Era Vargas. Rio de Janeiro: Ed. UERJ / Ed. FGV, 1999.
[8] SIMON, Iumna Maria. Drummond: a poética do risco. São Paulo: Ática, 1978.
TAL, Tzvi. Imaginando dictaduras. Letras. Santa Maria: Mestrado em Letras da UFSM, 2000. n.16.
[9] CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.
[10] HARDMAN, Francisco Foot, org. Morte e progresso. Cultura brasileira como apagamento de rastros. São Paulo: Ed. Unesp, 1998.
[11] CELAN, Paul. Poemas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977.
[12] CAMPOS, Maria do Carmo. A matéria prismada. O Brasil de longe e de perto & outros ensaios. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Mercado Aberto, 1999.
[13] FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1998.
[14] MICELI, Sérgio. Intelectuais e classe dirigente no Brasil. 1920-1945. São Paulo: Difel, 1979.
[15] MIRANDA, Wander Melo. As fronteiras internas da nação. Cânones. Contextos. 5o Congresso Abralic. Anais. Rio de Janeiro: Abralic, 1997. v.1.
[16] SCHMIDT, Rita Terezinha. Prefácio. In: ___, org. Nações / narrações. Porto Alegre: ABEA, 1997.
[17] PINHEIRO, Paulo Sérgio. Autoritarismo e transição. Revista USP. São Paulo: USP, 1991. n.9.
[18] VIEIRA, Oscar Vilhena. Sociedade x Estado. Revista USP. São Paulo: USP, 1991. n.9.
[19]SEGATTO, José Antonio. Cidadania e ficção. In: VÁRIOS. Sociedade e literatura no Brasil. São Paulo: Ed. Unesp, 1999.
[20] SANTOS, José Vicente Tavares & TIRELLI, Claudia. A ordem pública e o ofício da polícia: a impunidade na sociedade brasileira. In: SOUSA, Edson Luiz, org. Psicanálise e colonização. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999.